25/9/09
“Vem chegando o …. outono”
Passou rápido. Muito rápido. Mesmo se durante o verão, em alguns momentos a sensação era de que ele não acabava nunca. A saudade já está cutucando a memória, como é seu costume. Foi sem muita pretensão que eu cheguei naquela cozinha esquisita, embaixo do calçadão de Nice, com vista pro mar. No primeiro dia, entrei e fui calorosamente recebido por 50 kg de batatas a serem descascadas. Depois foram cenouras que eu deveria descascar e cortar em “julienne”. Alho poró, salsão silvestre (uma fantástica descoberta), beringela siciliana, bulbo de erva-doce, era legume que não acabava mais. Lava, descasca, corta, lava, descasca, corta e por aí vai. E foi. Foi tudo parar nas panelas que eu passei a orquestrar. Mais uns dias e o lava, descasca e corta continuou, mas, desta vez, com peixes. Por descasca, entenda-se retirar as escamas, claro. E foi robalo, dourado, bacalhau (fresquinho), salmão, foi lula, foi polvo, foi camarão, foi mexilhão, vôngole, tudo lavado, descascado e cortado por estas minhas mãos que, aliás, nunca mais serão as mesmas. Em cada marca, cada cicatriz (e são muitas, de queimaduras terríveis e cortes banais) vai um pouquinho deste romance de verão. Por vezes me pego olhando as marcas em minhas mãos uma noiva abandonada que olha para o anel presenteado pelo noivo que partiu. A Michelle brinca que a cozinha é minha amante. E é mesmo, uma paixão fogosa, que não apaga. Voltando aos meus peixes lindos, fresquinhos, todos pescados, nada de peixe de criação, tudo com nadadeiras grandes de quem teve que enfrentar fortes correntes em alto mar. Este é um detalhe importante: todos legumes orgânicos, todos peixes selvagens, carnes, ovos, leite, tudo quanto tinha dentro do restaurante era orgânico. Até o detergente era orgânico. Enfim, depois de muito lavar, descascar e cortar peixes, também me vi os colocando em panelas, fornos, planchas, grelhas, enfim, fazendo com que a perda de suas vidas tenha valido à pena. Tem um ditando francês que diz “Le poulet, le prepare bien, sinon il sera mort por rien”, ou seja, o frango, prepare-o bem, senão ele terá morrido por nada”. E era isso que eu pensava todas as vezes que preparava algo. Mais uns dias e lá estava eu preparando ele mesmo: o poulet. Frango, né, mas pequenininho, um galetinho. E jarret de cordeiro e filet mignon. A carta do restaurante é assim. Pequena, mas cheia de gourmandise. E foi assim. Tudo começou devagarinho, abraçado em batatas e tudo terminou como uma locomotiva, passando os dias rodeado de panelas, pedidos, calor de mais de 60º e eu orquestrando sozinho o piano (pra quem não sabe, na cozinha chamamos piano o “complexo” de fogão, forno, plancha, grelha, placa quente, enfim, o instrumento onde construímos nossa obra, nossa arte e que está na foto aí acima). E, foi assim que eu passei o verão, oficiando meu artesanato do gosto.
E o verão se foi. Já sinto saudades. Mas o outono tá chegando e com ele as abóboras, os cogumelos, os maquereaux (peixe delicioso que eu não sei o nome em português), as maças, as uvas, enfim, uma gama de novos produtos com os quais hei de compor novas óperas!!!!
P.S: Esta era a vista com a qual eu trabalhava. Dá ou não dá pra ter saudade!!!!!!!!


criado por jaime.mario
6:41 — Arquivado em: 




O final do ano chegou. E com ele vieram a chuva e o frio. Eu nunca tinha visto tanta chuva em Nice. Está até parecendo Londres. Bem, como dizem, a chuva é abençoada. Pelo o fato deste tempinho osso não dar a mínima vontade de sair, a gente fica aqui em casa tomando vinho, vendo filmes, comendo, ou passeando pela internet. Ontem de manhã passei pela Promenade des Anglais e fiquei impressionada com a mudança da cor do mediterrâneo. Ele perdeu aquele azul enigmático e agora por causa dessas três semanas de dilúvio ficou marron.
