AZUL DA COR DO MAR

Este é um blog criado por duas pessoas que atravessaram o oceano atras nem sabem de que e que tem loucura suficiente pra nao parar nunca ou pra parar tudo de uma hora pra outra e fazer um monte de filhos; aqui vamos velejar …

28/10/07

CARA DE PAU

 

Sempre escutei as pessoas me chamarem de cara-de-pau - desde a época do colégio. Se os colegas de sala de aula decidiam fazer algo, se fossemos comer uma pizza e alguém quisesse a receita da massa, todos viravam e falavam: “vai lá Mi, você que é cara-de-pau e não tem vergonha de nada. Pede pra gente!” Eu sempre tive a impressão de ser tímida e calada, mas realmente nunca me incomodei em conversar com pessoas desconhecidas, pedir ajuda, informação ou fazer novas amizades, completamente diferentes. Segundo o Jaime, eu tenho a turma dos amigos natureza, também tenho os clubers, os descolados, os fashions, os cabeções, enfim, me sinto à vontade com todos eles, apesar deles interagirem muito pouco entre eles.

Eu morei quase três anos sozinha aqui na França e a pouca timidez que me restava acabou nessa época, porque eu tive que me virar sozinha pra conseguir viver e me adaptar em uma cultura bem diferente da brasileira.

Desde que chegamos aqui, eu tive que utilizar da minha famosa cara-de-pau para atingir objetivos. Logo que mudamos para a casa da Brigitte, ela começou a nos interrogar sobre o que tínhamos vindo fazer aqui. Eu disse a ela que era estudante e iria começar a freqüentar a universidade de letras. O resultado? Ela era, simplesmente, a secretária do departamento do curso que eu tinha inventado que iria fazer. A partir daí, ela ficou na maior pressão, me alertando sempre sobre a data limite das inscrições. Eu e o Jaime, então, decidimos tentar me inscrever na universidade. E, pra nossa surpresa, não é que deu certo!!!

Logo depois, eu recebi a resposta de um e-mail que eu tinha enviado, postulando um trabalho para o qual o anúncio exigia alguém que tivesse carro. Quando enviei este e-mail, o Jaime achou que era perda de tempo, mas minha cara-de-pau, mais uma vez, funcionou. Enfim, recebida a resposta, fui para a entrevista. Falei que ia ser estudante de letras, que adorava crianças e que poderia buscar o filho desse casal de ônibus. “De ônibus?” O casal tomou um susto, me disseram que nunca tinham andado de ônibus na vida e o lugar que moravam era bem isolado. Fui embora da entrevista, sabendo que tinha levado pau. Um mês se passou e, para a nossa surpresa, eles me ligaram e disseram que a vaga era minha, mas eles iriam deixar um carro à minha disposição para buscar o garotinho na escola e para que eu pudesse passear com ele. No dia seguinte, fui assinar o meu contrato, quando que de repente, me propuseram que eu fizesse um “test-drive”. Meu Deus do céu!!! Tinha mais de três anos que eu não dirigia! E o único carro que eu havia dirigido na vida fora o da auto-escola!!! Tive uma pane intestinal na hora! Fui para o tal teste (depois de passar bons minutos no banheiro). Quando o teste acabou, o dono do carro estava roxo de ódio, com as veias do pescoço estufadas e suando. Ele me olhou, tentou esboçar um sorriso, e disse: “você não gostaria de buscar o meu filho de ônibus?” Sorri e disse “sem problema!!”

Faz um ano que eu estou trabalhando para esse casal. E na semana passada, tomei coragem e convidei-os para virem jantar aqui em casa, porque, além de serem pessoas super interessantes, é mais uma oportunidade de fazer a propaganda do chef Solares!!!  Contei pro Jaime ele riu e falou: “QUE CARA-DE-PAU!!”

criado por jaime.mario    19:49 — Arquivado em: Sem categoria

25/10/07

NOTICIAS

Nice, 25 de outubro de 2007

Caros amigos e familiares,

Já faz um bom tempo que não conto novidades aqui de Nice. E elas são muitas. Quando cheguei, a casa estava bem diferente. Agora temos um sofá verde e almofadas retrôs, bem anos 60, que, aliás, é uma tendência aqui em casa – nós gostamos deste estilo. Temos também um bonito móvel de televisão, daqueles que têm colunas pra encaixar CD´s e portinholas de vidro na parte de baixo. Temos televisão, claro, DVD, computador, câmera digital, Ipod, mais um celular, enfim, tecnologia que pra muitos pode parecer banal, mas que pra nós é uma curtição. Dentro de poucos dias, teremos conexão à internet, telefone fixo e cabo de televisão. Temos mais livros, mais utensílios de cozinha, mais idéias (temos estado os dois bastante criativos). Temos sentido mais saudades, mas, também, temos feito mais planos. Temos mais toalhas e roupas de cama. Temos mais roupas também. Agora temos que selecionar o que fica no armário e o que fica guardado dentro de malas, de acordo com a estação. E temos mais amigos – nos fins de semana temos que dividir o tempo entre diferentes grupos de pessoas e, em alguns momentos, precisamos recusar convites e programas pra curtimos sozinhos nossa casa.

Agora somos dois na faculdade. A Michelle começou o seu segundo ano universitário e eu comecei um curso de francês bem legal. Eu me matriculara em um determinado curso e, depois de um teste, a universidade me encaminhou pra outro, mais avançado, que é bem mais interessante. Vejam só: estou tendo aula de civilização européia, geografia e história francesas, cinema e contos franceses, arte e literatura da Idade Média, além, claro, de língua francesa (oral e escrita). O curso tem sido bem bacana. A troca de experiências é muito legal. Na minha turma tem gente dos seguintes países: Alemanha, Brasil, Bulgária, China, Coréia, Dinamarca, Espanha, Estados Unidos, Geórgia, Inglaterra, Iran, Itália, Japão, México, Nova Zelândia, Romênia, Rússia e Uzbequistão. Em outros grupos deve haver mais nacionalidades. Eu acho que tenho me saído bem no curso. Também tenho lido mais. Tenho uma colega, brasileira, escritora, que me empresta livros. Pra quem gosta de ler, vale a pena se aventurar pelo Budapeste do Chico Buarque. É legal demais!!! Recomendo.

Este ano estou conhecendo o outono invernal aqui de Nice. Ano passado, o clima ficou ameno, mas este ano já estamos enfrentando cerca de 5 graus pela manhã, em outubro. O inverno deve ser rigoroso. As pessoas aqui estão receosas de que a neve caia sobre Nice. Isso já aconteceu algumas vezes e é bem bizarro olhar a praia coberta de neve. Eu vi por fotos, mas a Michelle estava aqui quando aconteceu pela última vez, em 2005.
Estamos felizes, saudáveis e cheios de energia. A Michelle está cada vez mais linda, claro. Tudo está indo bem.

Quando estivermos conectados em nossa casa, tentaremos manter mais contato com as pessoas do Brasil. Por enquanto, é só.

Abraços e beijos a todos.

Jaime

criado por jaime.mario    12:16 — Arquivado em: Sem categoria

15/10/07

Contos Dazur

Quem me conhece sabe que uma das coisas que eu mais gosto é de contar estorias. Este blog serve pra isso, como também pra me manter em contato com as pessoas queridas, esquecidas ou não.

Resolvi, então separar as coisas  - acho que tô ficando maniaco com organização. Alias, minha mãe deve estar se sentindo orgulhosa: passou a vida toda me fazer menos desorganizado e, parece, finalmente obteve sucesso!!! hehe

Continuarei a deixar aqui faiscas do nosso cotidiano, estorias contadas e/ou inventadas sobre os dois personagens principais desta aventura: Jaime (eu) e Michelle. Mas pra contar as estorias de outros personagens, resolvi, neste surto de organização criar um outro blog: o http://contosdazur.blog.terra.com.br .

Portanto, qem quiser velejar também por aqueles mares, visite o novo blog.

criado por jaime.mario    10:07 — Arquivado em: Sem categoria

2/10/07

A GAROTA DA PADARIA

Outra segunda-feira grita no despertador de Bento. Seis e meia da matina. A água da pia gela seu rosto e acaba de desperta-lo. Ele se veste, se penteia. Usa a colônia comprada na semana passada. Pagou caro, claro, afinal, a colega da repartição trouxe de Paris. Desce os três lances de escada e vai à padaria comprar seu desjejum: pão fresco, presunto, mussarela e uma caixa de figos secos.

A balconista lhe atende sorridente, lhe desejando um dia de gente, pois dia de cão terá ela trás daquele balcão. Ela lhe fatia as 150 gramas de cada dia e lhe entrega o pão branco, que tostado ele não gosta. Tudo vai bem embrulhado em papel pardo. Ela lhe sorri ao despedir e ele sai em disparada, pra não expor o seu rubor.

Volta pra casa, coloca a encomenda na geladeira e pão na prateleira. Toma seu gole de café e, sem comer nada, vai embora. Já passou da hora!

Bento passa o dia na repartição a pensar na balconista. Lembra a cor de cada dente naquele sorriso. Imagina seus cabelos, escondidos naquele lenço, e sente o cheiro da sua voz.

Todos os dias Bento sai de casa e faz suas compras naquele comércio, mesmo tendo outros mais próximos. Quando pode, vai três vezes no mesmo dia. Quando não pode, vai assim mesmo. Ele sonha com aquelas mãos, imagina o gosto dos seus pés e a textura de seus lábios.

Quanta vez Bento quis se apresentar e convida-la para um café. Não ali, claro. Na Colombo, lugar digno de sua beleza. Mas a timidez sempre o vence. E ele acaba sempre voltando pra casa com o pacote pardo, que só serve para encher sua geladeira.

Bento quer ser feliz, mas o embaraço é seu carrasco. Ele quer se declarar. Mas, quando a timidez afrouxa, a insegurança aperta. Coitado do Bento.

O despertador anuncia o sábado. Bento sai de casa na mesma hora. Ele tem uma flor à mão. Hoje ele não vestiu paletó. Passou um pouco de colônia e um tanto de coragem. Hoje ele vai se declarar. Ele chega à padaria e tudo parece funesto. Ele nota a sua ausência. Logo hoje é o seu dia de folga? Logo hoje ela não veio? “Onde está a moça que sempre me atende?” pergunta Bento ao caixa. “Tereza?” Pela primeira vez ele sabe seu nome. Seu coração dispara. O caixa continua: “O senhor não soube? Ela foi atropelada ontem, ao sair aqui da loja. Chamaram o patrão no hospital. Ele foi lá, deu todo apoio, mas ela não resistiu. O problema foi a demora do atendimento, seu Bento. O senhor sabe como é. O pessoal dá preferência pra quem paga particular. Pobre é assim: acidentou ou adoeceu, morreu”. Bento perde o ar, quase cai. Ele vê seu coração em fatias: 350 gramas bem fininhas. Seu corpo volta pra casa vazio de alma, desolado. Atravessa a avenida sem nem olhar pro lado. “Que bom se eu fosse atropelado, aí eu poderia encontrar Tereza.” Agora ele sabe o seu nome. Mas de que adianta? Ele quer morrer!

Bento chega em casa, abre a geladeira e olha pra todos aqueles pacotes pardos. Ele lembra de cada vez que escutou sua voz, que viu suas mãos seduzirem o barbante e corta-lo no lugar exato. Ele lembra de como ela sempre lhe sorria e ele fugia.

Ele decide se livrar daquelas compras. Mas não sem antes abri-las. Tem inveja daqueles pacotes que foram acariciados por Tereza.  Abre o primeiro deles. Encontra um bilhete de Tereza se apresentando e lhe desejando boas vindas ao bairro. Se espanta, mas continua em prantos. Abre outro, mais um bilhete. Desespera-se. Abre todos. Em cada um, um recado. O último que Bento abre, ela lhe entregou ontem pela manhã e o bilhete lhe diz: “Estou lhe escrevendo pela última vez, pois já sofri demais por este amor e você não se manifesta, só me despreza. Se quiser me dar uma chance, me encontre, no fim do expediente, do outro lado a avenida, na cafeteira em frente.”

criado por jaime.mario    12:45 — Arquivado em: Sem categoria
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