2/10/07
A GAROTA DA PADARIA

Outra segunda-feira grita no despertador de Bento. Seis e meia da matina. A água da pia gela seu rosto e acaba de desperta-lo. Ele se veste, se penteia. Usa a colônia comprada na semana passada. Pagou caro, claro, afinal, a colega da repartição trouxe de Paris. Desce os três lances de escada e vai à padaria comprar seu desjejum: pão fresco, presunto, mussarela e uma caixa de figos secos.
A balconista lhe atende sorridente, lhe desejando um dia de gente, pois dia de cão terá ela trás daquele balcão. Ela lhe fatia as 150 gramas de cada dia e lhe entrega o pão branco, que tostado ele não gosta. Tudo vai bem embrulhado em papel pardo. Ela lhe sorri ao despedir e ele sai em disparada, pra não expor o seu rubor.
Volta pra casa, coloca a encomenda na geladeira e pão na prateleira. Toma seu gole de café e, sem comer nada, vai embora. Já passou da hora!
Bento passa o dia na repartição a pensar na balconista. Lembra a cor de cada dente naquele sorriso. Imagina seus cabelos, escondidos naquele lenço, e sente o cheiro da sua voz.
Todos os dias Bento sai de casa e faz suas compras naquele comércio, mesmo tendo outros mais próximos. Quando pode, vai três vezes no mesmo dia. Quando não pode, vai assim mesmo. Ele sonha com aquelas mãos, imagina o gosto dos seus pés e a textura de seus lábios.
Quanta vez Bento quis se apresentar e convida-la para um café. Não ali, claro. Na Colombo, lugar digno de sua beleza. Mas a timidez sempre o vence. E ele acaba sempre voltando pra casa com o pacote pardo, que só serve para encher sua geladeira.
Bento quer ser feliz, mas o embaraço é seu carrasco. Ele quer se declarar. Mas, quando a timidez afrouxa, a insegurança aperta. Coitado do Bento.
O despertador anuncia o sábado. Bento sai de casa na mesma hora. Ele tem uma flor à mão. Hoje ele não vestiu paletó. Passou um pouco de colônia e um tanto de coragem. Hoje ele vai se declarar. Ele chega à padaria e tudo parece funesto. Ele nota a sua ausência. Logo hoje é o seu dia de folga? Logo hoje ela não veio? “Onde está a moça que sempre me atende?” pergunta Bento ao caixa. “Tereza?” Pela primeira vez ele sabe seu nome. Seu coração dispara. O caixa continua: “O senhor não soube? Ela foi atropelada ontem, ao sair aqui da loja. Chamaram o patrão no hospital. Ele foi lá, deu todo apoio, mas ela não resistiu. O problema foi a demora do atendimento, seu Bento. O senhor sabe como é. O pessoal dá preferência pra quem paga particular. Pobre é assim: acidentou ou adoeceu, morreu”. Bento perde o ar, quase cai. Ele vê seu coração em fatias: 350 gramas bem fininhas. Seu corpo volta pra casa vazio de alma, desolado. Atravessa a avenida sem nem olhar pro lado. “Que bom se eu fosse atropelado, aí eu poderia encontrar Tereza.” Agora ele sabe o seu nome. Mas de que adianta? Ele quer morrer!
Bento chega em casa, abre a geladeira e olha pra todos aqueles pacotes pardos. Ele lembra de cada vez que escutou sua voz, que viu suas mãos seduzirem o barbante e corta-lo no lugar exato. Ele lembra de como ela sempre lhe sorria e ele fugia.
Ele decide se livrar daquelas compras. Mas não sem antes abri-las. Tem inveja daqueles pacotes que foram acariciados por Tereza. Abre o primeiro deles. Encontra um bilhete de Tereza se apresentando e lhe desejando boas vindas ao bairro. Se espanta, mas continua em prantos. Abre outro, mais um bilhete. Desespera-se. Abre todos. Em cada um, um recado. O último que Bento abre, ela lhe entregou ontem pela manhã e o bilhete lhe diz: “Estou lhe escrevendo pela última vez, pois já sofri demais por este amor e você não se manifesta, só me despreza. Se quiser me dar uma chance, me encontre, no fim do expediente, do outro lado a avenida, na cafeteira em frente.”
criado por jaime.mario
12:45 — Arquivado em: 

Comentário por Degustador — 2 02UTC outubro 02UTC 2007 @ 13:07
Muito bacana esse blog. Parabéns!
Abraços!
Comentário por Bel — 5 05UTC outubro 05UTC 2007 @ 13:27
Eu conheço esta estória! Que lindo que vc escreveu. Gostei demais! E este final trágico foi o melhor… coitado do Sr. Bento!
Saudades do veleiro. Saudades de vc!
Beijos
Comentário por Amana — 13 13UTC outubro 13UTC 2007 @ 13:29
Vc não sabe o tanto que eu fiquei emocionada de ler ese conto!!! Por um instante eu estive de volta à sua casa, sentada àquela mesa, tomando aquele vinho e varando a madrugada nos papos mais divertidos! Que bom que vc o escreveu! Ele deve estar tão feliz!!
Pronto. Agora tem que ser todos. Pó começar: 1, 2, 3, já! E eu quero ser das primeiras a ler o livro.
583 beijos pra vc e pra Mi! Saudades absurdas.