27/2/08
Desde o dia 01/01 deste ano, vigora uma lei, aqui na França, proibindo o consumo de tabaco dentro de locais fechados, como os restaurantes, bares, boites e, até mesmo cafeterias e tabacarias. Em meio à diversas discussões sobre o tema (alias, qualquer tema é motivo para discussões por aqui), surge um novo ponto de vista sobre o assunto, ou melhor, um outro ponto de cheiro. Isso mesmo!! Apos a eliminação da fumaça opaca e fedorenta de dentro dos ambientes fechados, outros odores se impuseram às narinas francesas. A reclamação agora é contra as sensações olfativas causadas pela falta de higiene. Como não ha mais o cigarro para disfarçar, as boites estão fedendo a ser humano: axilas, pés, bocas, roupas e até os baixos têm exalado suas assinaturas nada agradaveis por todos os cantos do pais do perfume, que alias, também é alvo de reclamações, pois não ha Coco Channel n° 5 que fique gostoso ao ser misturado com cecê de qualquer numero!!! O debate se extende aos escritorios fechados que também sofrem da mesma doença. Eu invoco as pessoas que se dispuseram a ler este relato a fazerem um trabalho de conscientização entre os franceses que conhecem para que estes ultimos compreendam a necessidade e o grande prazer que um banho proporciona. Sejamos todos uma pequena gota e mergulhemos os conterrâneos de Asterix e Obelix em um caldeirão de alegria.
9/2/08

Ela foi embora! Ela nunca foi embora antes, sempre fui eu quem virou as costas e pegou a estrada. Ontem eu, pela primeira vez na minha vida, vi minha mãe indo e eu ficando. Eu fui embora aos vinte e três anos (e lá se vai tempo), tomando o rumo que a vida ofereceu. Voltei depois de mais de dez anos e, pra não perder a prática, fui embora de novo e de novo e de novo. Fui embora e voltei várias vezes. Não ontem. Ontem eu fiquei. Ela cruzou o detector de metais, levantou os braços pra ser revistada, falou algo em português com o segurança francês (mas ele entendeu, pois lhe indicou algo com a mão), em seguida virou-se pra mim, acenou e se foi. E eu fiquei ali, no saguão do Aeroporto Internacional Côte D´Azur, em pé, desesperado de vontade de correr lá dentro e dar um último abraço, perdido, sem lugar, sem nada nas mãos, nem sob os pés. De algum jeito, eu me virei e dei alguns passos até a escada rolante, onde dei de cara com alguém carregado de malas, pois quis descer pela escada que subia. Ouvi alguns xingamentos em alguma língua escandinava, pois, logicamente, a pessoa que subia a escada se embolou toda com as malas, por minha causa. Com algum esforço cheguei ao ponto de ônibus e tentei falar com a Michelle: caixa postal (ela estava trabalhando). Eu precisava ouvir alguma voz reconfortante. Liguei de novo: caixa postal. Liguei, então pra Amana: caixa postal. Liguei de novo pra Michelle: caixa postal. O ônibus chegou (um pequeno ônibus que vai de um terminal ao outro). As pessoas subiam cheias e malas e abraços e eu subi sem nada nas mãos ou sob os pés. Liguei de novo pra Amana: caixa postal. Desisti de ligar pra alguém. Encostei a cabeça no vidro e fiquei olhando pra fora, buscando não sei o quê. Cheguei ao terminal 1, desci e fui em direção ao ponto do ônibus que vai pra casa. Ele estava saindo, eu corri pra pedir ao motorista pra parar e me esperar (coisa rara aqui na França). Ele parou e isso me confortou. Foi essa atitude que me consolou naquele momento. Eu me sentei na cadeira atrás do motorista, de frente pra um vidro cheio de papéis, pois não queria que ninguém visse minha cara de cachorro assutado. O ônibus encheu, as pessoas se acotovelavam pra passar e eu cruzei todo o corredor pra descer na porta de casa sem nada sentir. Desci do ônibus e liguei de novo pra Michelle. Ela atendeu e eu disse “pode falar?”. Ela respondeu “não”. Eu disse então “quando sair do trabalho, me liga” Ela disse que sim, nos despedimos e eu subi pra casa. Foi bom. A voz dela me colocou algo sob os pés de novo. Subi e liguei a televisão. Não lembro o que passava.