AZUL DA COR DO MAR

Este é um blog criado por duas pessoas que atravessaram o oceano atras nem sabem de que e que tem loucura suficiente pra nao parar nunca ou pra parar tudo de uma hora pra outra e fazer um monte de filhos; aqui vamos velejar …

9/2/08

Au revoir mama

Ela foi embora! Ela nunca foi embora antes, sempre fui eu quem virou as costas e pegou a estrada. Ontem eu, pela primeira vez na minha vida, vi minha mãe indo e eu ficando. Eu fui embora aos vinte e três anos (e lá se vai tempo), tomando o rumo que a vida ofereceu. Voltei depois de mais de dez anos e, pra não perder a prática, fui embora de novo e de novo e de novo. Fui embora e voltei várias vezes. Não ontem. Ontem eu fiquei. Ela cruzou o detector de metais, levantou os braços pra ser revistada, falou algo em português com o segurança francês (mas ele entendeu, pois lhe indicou algo com a mão), em seguida virou-se pra mim, acenou e se foi. E eu fiquei ali, no saguão do Aeroporto Internacional Côte D´Azur, em pé, desesperado de vontade de correr lá dentro e dar um último abraço, perdido, sem lugar, sem nada nas mãos, nem sob os pés. De algum jeito, eu me virei e dei alguns passos até a escada rolante, onde dei de cara com alguém carregado de malas, pois quis descer pela escada que subia. Ouvi alguns xingamentos em alguma língua escandinava, pois, logicamente, a pessoa que subia a escada se embolou toda com as malas, por minha causa. Com algum esforço cheguei ao ponto de ônibus e tentei falar com a Michelle: caixa postal (ela estava trabalhando). Eu precisava ouvir alguma voz reconfortante. Liguei de novo: caixa postal. Liguei, então pra Amana: caixa postal. Liguei de novo pra Michelle: caixa postal. O ônibus chegou (um pequeno ônibus que vai de um terminal ao outro). As pessoas subiam cheias e malas e abraços e eu subi sem nada nas mãos ou sob os pés. Liguei de novo pra Amana: caixa postal. Desisti de ligar pra alguém. Encostei a cabeça no vidro e fiquei olhando pra fora, buscando não sei o quê. Cheguei ao terminal 1, desci e fui em direção ao ponto do ônibus que vai pra casa. Ele estava saindo, eu corri pra pedir ao motorista pra parar e me esperar (coisa rara aqui na França). Ele parou e isso me confortou. Foi essa atitude que me consolou naquele momento. Eu me sentei na cadeira atrás do motorista, de frente pra um vidro cheio de papéis, pois não queria que ninguém visse minha cara de cachorro assutado. O ônibus encheu, as pessoas se acotovelavam pra passar e eu cruzei todo o corredor pra descer na porta de casa sem nada sentir. Desci do ônibus e liguei de novo pra Michelle. Ela atendeu e eu disse “pode falar?”. Ela respondeu “não”. Eu disse então “quando sair do trabalho, me liga” Ela disse que sim, nos despedimos e eu subi pra casa. Foi bom. A voz dela me colocou algo sob os pés de novo. Subi e liguei a televisão. Não lembro o que passava.

criado por jaime.mario    11:35 — Arquivado em: Sem categoria

1 Comentário »

  1. Comentário por Cenira Cardoso Neto — 11 11UTC fevereiro 11UTC 2008 @ 13:40

    Filho,

    chorei muito quando entrei na sala de embarque. Você disse bem, desta vez fui eu que fui embora, mas outras vezes virão e estaremos juntos novamente. A nossa separação é apenas física porque continua no meu coração para sempre.

    Agradeço a você a Michele pelo carinho e atenção que me dedicaram aí. Adorei estar com vocês.

    Eu amo vocês.

    Muitos beijos com uma grande saudade.

    Da mãe Cenira

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