AZUL DA COR DO MAR

Este é um blog criado por duas pessoas que atravessaram o oceano atras nem sabem de que e que tem loucura suficiente pra nao parar nunca ou pra parar tudo de uma hora pra outra e fazer um monte de filhos; aqui vamos velejar ...

AZUL DA COR DO MAR

Este é um blog criado por duas pessoas que atravessaram o oceano atras nem sabem de que e que tem loucura suficiente pra nao parar nunca ou pra parar tudo de uma hora pra outra e fazer um monte de filhos; aqui vamos velejar ...
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Terra Blog

Arquivo de: Julho 2008, 20

20.07.08

Dona Quitéria

Emprestei este texto do blog do gabinete da vereadora paulista Soninha Francine: http://gabinetesoninha.zip.net/

 

Eu sei que é um tanto longo, mas quem estiver de frente pra esta tela agora, não deixe de ler. Não deixe mesmo!!! É preciso!!! É necessário ler este texto:

 

                               Crônica do sofrimento interminável


Uns dois ou três anos atrás, Quitéria foi operada de um mioma.

24 horas depois da cirurgia, se tanto, teve alta. Ainda estava muito debilitada, sentindo dor. Não tinha nem como ir embora.

No dia seguinte voltou ao hospital de ambulância, com uma hemorragia horrorosa.

Não era o começo (há séculos esperava pela cirurgia) nem o fim de seu calvário (ainda faltava sofrer muito).

Quitéria entra e sai de hospitais e pronto-socorros com a mesma freqüência com que outros vão ao supermercado ou à padaria.

Tem dois caroços enormes e doloridos nos ovários. Ninguém sabe o que é – seqüela da operação? Tumores benignos? Tumores malignos? Sem ter certeza do diagnóstico, chegaram a receitar quimioterapia. Por duas semanas, como se não bastasse o resto, ainda passou por esse sofrimento inútil – enjôo, fraqueza, falta de apetite. Tristeza, prostração.

Também como efeito colateral da cirurgia mal arrematada, tem incontinência urinária.

Mora em uma casa que seria candidata imbatível ao “Extreme Makeover”, programa de TV em que uma edificação mais ou menos feia vai ao chão e a equipe constrói algo lindo no lugar.

Teve dez filhos; seis estão vivos. Um já saiu de casa e tem um filho pequeno. Os outros cinco moram com ela. A renda da família é incertíssima – o marido faz bicos como ajudante de tudo (pedreiro, encanador, eletricista). O segundo filho trabalha em um bar, deve ganhar um salário mínimo. Mal conseguem pagar a conta de luz, que dirá o estoque de fraldas para adultos. Os remédios caros.

E os muitos táxis que Quitéria tem de pegar a toda hora para ir ao pronto-socorro.

Com dor lancinante, mal-estar profundo, depressão, convulsões.

Nas últimas semanas, deve ter procurado atendimento de emergência bem umas dez vezes. Fora as consultas e exames. Vive para lá e para cá, em uma romaria sem fim. Já passou por sabe lá quantos médicos, quantas máquinas.

Esteve para ser operada inúmeras vezes. Jejum, internação de véspera, preparação para a cirurgia e... Nada. Voltou da sala de espera, do quarto ou mesmo do centro cirúrgico. Porque perderam seu prontuário médico (mais de uma vez); porque tinha um problema de pele (há meses) e não poderia tomar a injeção da anestesia (e só viram na hora de fazer a cirurgia); porque estava com a pressão muito alta e não resistiria.

O remédio para o problema de pele? Não, claro que eles não forneceram. Ela teve de comprar. Com que dinheiro?

Nos últimos tempos, Quitéria passou a ter um pequeno agravante de sua condição: AVCs. Já foram vários. Chega ao hospital torta, travada, semi-paralisada, virando os olhos, enrolando a língua, tendo espasmos. Medicam e mandam embora para casa.

Nunca chega a passar uma noite no hospital (a não ser em um daqueles dias em que esperava ser operada). Mandam embora, e ela que pague um táxi (com que dinheiro?).

Quando tem dor-de-dente, inflamação, nevralgia, Quitéria procura um dentista (com que dinheiro?) que consiga aliviar a dor. Não adianta – sabendo de sua condição, da pressão altíssima, têm medo de dar anestesia e ela passar mal. É outro tormento.

O único alívio da vida dela nos últimos tempos é a acupuntura. Com ela, já conseguiu mexer o braço e abrir a mão que ficaram travados nos AVCs.

Há cerca de dois meses, Quitéria tem se consultado com médicos de dois outros hospitais. Teve muita esperança de ser operada, finalmente. Mas esta semana ouviu de uma médica que a bexiga não tem mais jeito – não adianta nem operar. A incontinência será permanente. Talvez ela possa tomar um remédio que melhore a situação, se o cardiologista autorizar. Não, o remédio não é distribuído, teria de ser comprado.

Com que dinheiro?

Na semana passada, não suportando a dor abdominal, Quitéria foi, pela milionésima vez, a um hospital. Não havia médico, foi o que disseram. Procurou um pronto-socorro.

Foi medicada – analgésico, anti-inflamatório – e dispensada. O rapaz deu um encaminhamento para fazer um ultra-som. “Talvez seja vesícula”. Acho que foi na sexta.

O fim-de-semana transcorreu, é claro, com muita dor. Dor, desalento, desespero, tristeza. Na consulta com a médica que a desenganou quanto à cirurgia da bexiga, falou da dor e do pedido de ultra-som. “Ah, você tem de ir a uma UBS marcar um clínico para ele pedir um exame”. Sim, ela estava em um equipamento de saúde diante de uma médica, e recebeu a orientação para “procurar-uma-UBS-marcar-um-médico” etc.

Quitéria continuou com dor. Felizmente, teve acupuntura hoje de manhã. Sabendo do ocorrido no fim da semana passada, a acupunturista não teve dúvida, a encaminhou imediatamente para o tal do ultra-som.

O exame ficou pronto. Alguém do hospital olhou e disse: “Não sei, pode ser apendicite”. Talvez Quitéria seja um milagre de sobrevivência, não uma pessoa.

O retorno ao médico dela está marcado para dia 28. De agosto.

Quitéria passou o dia todo com dor, é claro. O marido esperava receber hoje o pagamento da semana – não recebeu. Chegou em casa sem dinheiro (claro) para pagar um táxi.

Ambulância? Não vai buscar alguém só porque está morrendo de dor.

Acabaram indo a um dos hospitais onde ela é atendida, com carteirinha e ultra-som na mão, procurando o pronto-atendimento.

Foi medicada, saiu de lá com um Buscopan para tomar em casa e uma receita para comprar um remédio na farmácia, porque “não é de pegar no posto”.

Com que dinheiro?

Pode voltar na segunda para falar com o médico dela, mesmo não sendo o dia da consulta. Desde que alguém lhe pague o táxi.

***

Este texto que vcs acabaram de ler é verídico!!!!

 

Precisa falar algo??

 

Na verdade, precisa, mas pra Dona Quitéria ninguém liga. Tá todo mundo preocupado com a madrasta que matou a menininha bonitinha!!!

 

Ah, tem também quem tá preocupado só com o próprio umbigo.

 

No fim, somos todos culpados do sofrimento da Dona Quitéria. Mas aí a gente reza um pouco, dá uns trocados pro mendigo do sinal, manda um dinheirinho pra uma creche todo fim de mês e pensamos estar fazendo nossa parte. Ou, pelo menos, fingimos que pensamos, pra que ninguém perceba que, no fundo, não estamos nem aí.

 

Quem quiser vai lá explicar isso pra Dona Quitéria.

 

Mas antes de ir, deixa a vergonha da cara em casa, numa gaveta bem trancada, senão não vai conseguir nem abrir a boca.

 

  • criado por  Michelle/Jaime criado por Michelle/Jaime
  • Postado em 16:44:03